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Sintomas Interpretativos

Mariana Trigo
TV Press

Nem todos os atores saem ilesos de uma gravação. Dependendo da composição dos personagens e até das ações nas quais estão envolvidos, como em lutas ou grandes sofrimentos emocionais, os efeitos físicos gerados por alguns papéis podem até se tornar um martírio para seus intérpretes. Na pele da adúltera Dedina, em "A Favorita", Helena Ranaldi assume que se envolve tanto – e por demasiadas horas diárias – com os conflitos de alguns personagens que acaba tendo complicações físicas, mesmo quando já está fora dos estúdios. Quando gravou cenas de muito choro e de agressão da personagem que traía o marido, inevitavelmente a atriz voltou no tempo. Na época de "Mulheres Apaixonadas", que está sendo reprisada, Helena passava mal após as gravações e tinha de se habituar com terríveis enxaquecas. "É difícil separar as coisas. Hoje aprendi a lidar melhor com isso. Mas você entra em contato com efeitos físicos através de uma energia pesada, que você desconhece", analisa.
O mesmo tem acontecido com Letícia Colin, que vive a insegura Vivi em "Chamas da Vida". Vítima das investidas agressivas do pedófilo Lipe, vivido por André Di Mauro, a atriz tem dificuldades em deixar de lado a tensão da personagem mesmo nas horas de folga. "Falar sobre sexualidade dessa forma é muito complicado. Eu ficava emocionalmente abalada no início das gravações", ressalta.
Mas nem só os dramas emocionais dos personagens afligem os atores. Quando teve de compor a rechonchuda Carola em "O Profeta", Fernanda Souza, que estava com irretocáveis 47 kg na época, teve de abandonar seu duelo com a balança. A atriz de 1,58 m de altura engordou 7 kg para viver a personagem. "Que mulher quer ficar 7 kg acima do peso? Tive de me desprender da vaidade, foi complicado demais. Tinha de não ligar se uma calça rasgasse quando eu sentava", lembra, aos risos.
Carolina Dieckmann, no entanto, fez o caminho inverso. Na pele da bronzeada Suzana em "Três Irmãs", a atriz chega a alisar os cabelos ao lembrar do sofrimento que teve de passar quando precisou raspar a cabeça para interpretar a sofredora Camila, em "Laços de Família". "Tive de nascer de novo com aquela personagem com cabeça raspada, magra demais. Foi ali que vi que posso fazer tudo por essa carreira", lembra a atriz. Tempos depois, em "Cobras & Lagartos", Carolina assume que novamente se sentiu exaurida por um papel. Foi na pele da diabólica Leona, sua primeira vilã na carreira. "Ela sugava todas as minhas energias. Chegava em casa esgotada e precisava ficar quieta. Vivia um trapo", recorda.
Efeitos físicos gerados por personagens são até comuns, mas raros são os atores que se mutilam por um papel. Foi o caso de Murilo Benício ao compor o arredio Juca Cipó na segunda versão de "Irmãos Coragem", em 1995. O ator chegou a raspar um dente incisivo e cortar parte da sobrancelha para dar mais verossimilhança ao personagem. "Faço o necessário que um papel me pede. O Robert De Niro, por exemplo, engordou cerca de 20 kg para um boxeador", ressalta o ator, se referindo ao longa "Touro Indomável", no qual Robert interpretou o boxeador Jake La Motta.
Além dos efeitos colaterais desastrosos ou indesejáveis, existem alguns personagens que valorizam a estética dos atores. Foi o que aconteceu com Regiane Alves quando viveu a determinada médica Joana, em "Beleza Pura". Para convencer como uma competente dermatologista, a atriz teve de tomar um cuidado excessivo com a pele, que precisava aparecer sempre como uma porcelana na trama. Para isso, passou a evitar se expor ao sol, saía durante o dia com chapéu, muito filtro solar e começou a se besuntar de cremes faciais. "Passei a ter outra relação com a minha pele através da personagem. Até a minha alimentação mudou. Alguns personagens trazem heranças saudáveis para os atores", comemora.

Por osmose
A intensidade da entrega de alguns atores para seus personagens se torna ainda maior quando eles têm vocação para o drama. É o caso da atriz Vanessa Gerbelli. "Me sinto mais confortável em papéis dramáticos. Prefiro personagens que vão para a tragédia", assegura a atriz. São justamente esses personagens mais intensos que costumam impregnar efeitos colaterais mais dolorosos nos atores.