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Periferia ligada
Gabriela Germano
TV Press
Daria até
para ver tudo pela tela do computador. Mas Regina Casé preferiu conferir
de perto o crescimento das Lan Houses nos mais diferentes cantos do Brasil.
E a partir do próximo dia 16, ela registra esse movimento no "Fantástico".
O quadro "Lan House" mostra como elas funcionam. E como são
usadas por pessoas com diferentes perfis. "Mais importante do que a
queda do Muro de Berlim são as barreiras que a internet derrubou.
Ela bagunçou os limites entre o centro e a periferia", avalia
Regina.
Lan é a sigla inglesa para "local area network", ou, em
português, rede de aérea local, já que todos os computadores
de uma Lan estão conectados entre si. São nessas lojas que
as pessoas pagam para navegar na internet, digitar trabalhos ou simplesmente
se divertir com games.
Em um Cyber Café do Leme, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro, Regina
grava algumas passagens do programa e recebe um convidado interessante,
o garoto Maycon, de 12 anos. A história dele foi uma das selecionadas.
Maycon cuida de uma Lan House no Dona Marta, morro localizado no bairro
de Botafogo, também no Rio. "O dono é maqueiro no Engenhão
e, quando vai para o estádio, sou eu que cuido do local", conta
o menino, referindo-se ao estádio de futebol na Zona Oeste carioca.
Muito articulado, ele diz que começou a mexer com computadores aos
cinco anos, na escola. O que ele mais gosta de fazer é jogar, mas
confessa que a máquina facilita sua vida nos estudos. "Foi muito
mais fácil fazer uma pesquisa sobre os jogos Panamericanos que a
professora pediu. É melhor os meninos da minha idade se ocuparam
com isso do que com drogas", defende Maycon.
Os exemplos vão muito além do Rio. Por enquanto Regina já
esteve em São Paulo, na Bahia. "Mas Fortaleza foi interessantíssimo.
Encontramos quatro pessoas que falavam até japonês porque passaram
a ter acesso a músicas e personagens do Japão pelo computador",
adianta ela.
Estevão Ciavatta, marido de Regina e seu parceiro em todas as empreitadas
profissionais, conta que na verdade a idéia era fazer um quadro sobre
música. "E começamos a perceber que várias letras
estavam repletas de temas internéticos", resume. A partir daí,
a idéia foi reformulada. "Se a gente mostrou que a periferia
estar no mundo é uma revolução, a gente tinha de falar
da periferia na internet. Esse é um passo à frente",
acredita Estevão, que é o diretor do quadro.
"Lan House" será apresentado em seis domingos no "Fantástico"
e ainda terá um especial de fim de ano na grade de programação
da Globo. Mário Brandão, dono de um Cyber Café e presidente
da ABCID, Associação Brasileira de Centros de Inclusão
Digital, também conversou com Regina Casé. "As lans não
nasceram na periferia, mas encontraram nesse espaço o terreno ideal",
explica Mário, ao falar do papel desses locais como prestadores de
serviço. "Tem gente que imprime segunda via de documento e checa
até o valor da rescisão trabalhista", valoriza Mário,
ao dizer que hoje existem 90 mil lan houses espalhadas pelo Brasil.
Com a descontração de sempre e ao lado de Mumuzinho, pagodeiro
do Rio que também usa a internet para popularizar suas músicas,
Regina diz que foi, inclusive, zoada no meio das gravações.
"Perguntei sobre MP3 para alguém e essa pessoa me tirou, dizendo
que eu não sabia nada de MP7", conta aos risos. Estevão
emenda: "você vê que a maioria começa autodidata
e depois se torna praticamente técnico em computação",
exalta. E as conexões vão além das barreiras nacionais.
"Visitei Moçambique e a favela mais remota de lá se comunica
comigo direto de uma Lan House", completa Regina.