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PRONTO

Rubens Coelho - Jornalista.

Já ocorreram as eleições municipais de cinco de outubro, coincidindo nesta data com o aniversário dos 20 anos da promulgação da Constituição de 1988, intitulada de "Constituição Cidadã" pelo saudoso deputado Ulisses Guimarães. Realmente a mais democrática das constituições tidas no Brasil, apesar de já ter sofrido 56 emendas constitucionais em suas duas décadas de existência. Mesmo assim, ela continua sendo a mais livre de todos os tempos.
Graças à Constituição de 1988, hoje temos eleições livres para escolha de nossos governantes em todos os níveis, de prefeito dos municípios à Presidência da República. Domingo passado, tivemos a consagração em todo o País e em todas as cidades desse direito cidadão. Os brasileiros foram às urnas escolher seus representantes nos Executivos e Legislativos municipais. A festa da democracia, salvo alguns fatos isolados, sem maior importância, realizou-se ordeira e tranqüila como deve ser numa civilização moderna.
Em nosso Estado e em Mossoró especificamente não foi diferente. Os eleitores votaram livremente, sem qualquer constrangimento. Alegres e em paz sufragaram seus candidatos que acharam melhor para representá-los. A disputa foi acirrada, mas sem incidentes. Reelegeram a prefeita Maria de Fátima Rosado Nogueira, com uma expressiva maioria, aumentando-lhe a responsabilidade para sua nova administração. Foi mais um merecido voto de confiança dos mossoroenses à prefeita. Agora é aguardar a concretização das esperanças depositadas na gestora municipal que reassumirá em primeiro de janeiro de 2009.
Em relação à Câmara Municipal, as expectativas também são positivas. Houve uma grande renovação, apenas quatro dos treze vereadores da atual legislatura foram reeleitos. E aqui, faço uma ressalva, muitos acham ter sido a propalada Operação Sal Grosso responsável pela rejeição à grande maioria dos atuais legisladores. Em minha opinião pouco influiu, apesar de ter sido anunciada com estardalhaço às vésperas do pleito. Mas a bomba que se anunciava não passou de um traque com efeito apenas de exalar um pouco de cheiro de pólvora e nada mais.
O que influenciou mesmo o eleitor a não renovar o mandato de muitos vereadores foi a legislatura amorfa, sem personalidade, sem projetos consistentes. Subserviente demais diante do Poder Executivo. Parlamentares, com raras e agradáveis exceções, longe do povo, dos seus interesses. Essa falta de compromisso, efetivamente, foi o responsável pela derrota da maioria. É pena nesse rolo compressor ter sido sacrificado parlamentar da estirpe de uma doutora Gilvanda. Mas é isso mesmo, muitas vezes o justo paga pelo pecador, faz parte da vida.
A Câmara Municipal de Mossoró terá grande renovação na próxima legislatura. O povo espera que não seja apenas de nomes, mas principalmente de postura como parlamentares legítimos representantes dos seus eleitores e da população da cidade. Esperemos.


CRISE RESSUSCITA MARX

Rinaldo Barros - professor da UERN - rinaldo.barros@gmail.com

Os ideólogos neoliberais argumentaram, em 1989, que o capitalismo liberal (fundado no deus-mercado) havia triunfado para sempre, e que a história havia chegado ao fim. Ou seja, que o neoliberalismo era um sistema de relações humanas definitivo para todo o sempre.
Na última década, vimos a crise financeira do leste asiático, que começou no verão de 1997; a crise econômica Argentina de 1999-2002 e, sobretudo, a crise dos empréstimos hipotecários que começou nos Estados Unidos em 2006 e agora tornou-se a maior crise financeira do pós-guerra: 4 trilhões de dólares desapareceram das Bolsas, em uma semana.
Em meio ao desespero, está surgindo um fenômeno bastante interessante.
Segundo Eric Hobsbawm (nascido em Alexandria, no Egito, em 1917), um dos mais importantes historiadores marxistas europeus vivos, "há um indiscutível renascimento do interesse público por Marx no mundo capitalista. Este renascimento foi provavelmente acelerado pelo fato de que o 150° aniversário da publicação do Manifesto Comunista coincidiu com uma crise econômica internacional particularmente dramática em um período de uma ultra-rápida globalização do livre-mercado".
Karl Marx fez algumas previsões descrevendo o mundo capitalista moderno em termos globais, em seu Manifesto Comunista, de 1848.
Naquele tempo, o barbudo já alertava: "A necessidade de um mercado em constante expansão para seus produtos persegue a burguesia em toda a superfície do globo. Ela precisa se aninhar em toda parte, se estabelecer em toda parte, e criar conexões por toda parte. A indústria moderna converteu a oficina do mestre patriarcal na grande fábrica do capitalista industrial.".
A novidade é que Marx está de volta. São os capitalistas, mais que outros, que estão redescobrindo Marx. Vários capitalistas admitem que o filósofo ainda oferece uma análise valiosa do fenômeno da globalização. Ao sugerir que o livre comércio era uma condição de progresso, Marx identificou a China e a Índia como sócios potenciais do capitalismo. Também preveniu que o capitalismo lutaria para administrar as tensões associadas à economia global.
Como podemos explicar esse súbito ressurgimento? Primeiro, o fim do marxismo oficial da União Soviética libertou o pensamento do homem Marx da identificação pública com o leninismo em teoria, e com os regimes leninistas na prática. As pessoas começaram a notar, uma vez mais, que há coisas realmente muito interessantes em Marx, nas idéias marxianas.
E isso, em certo sentido, conduz a segunda e principal razão: que o mundo capitalista globalizado que emergiu nos anos 1990 era, em certos aspectos, muito parecido com o mundo que Marx previra em 1848 no Manifesto Comunista.
Alerta ainda Hobsbawm, "Se a política da esquerda no futuro será inspirada uma vez mais nas análises de Marx, como ocorreu com os velhos movimentos socialistas e comunistas, isso dependerá do que vai acontecer no mundo capitalista".
Isso se aplica não somente a Marx, mas à esquerda considerada como um projeto e uma ideologia política coerente. Posto que a recuperação do interesse por Marx esteja consideravelmente baseada na atual crise da sociedade capitalista, a perspectiva é mais promissora do que foi nos anos noventa.
A atual crise financeira mundial, que pode transformar-se em uma grande depressão econômica mundial, dramatiza o fracasso da teologia do livre mercado global descontrolado e obriga, inclusive o governo norte-americano, a escolher ações públicas esquecidas desde os anos trinta: intervenção do Estado na economia.
Ou seja, Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista.
Resumo da ópera: a globalização existe e, salvo um colapso da sociedade humana, é irreversível. Marx reconheceu isso como um fato e, como um internacionalista, deu as boas vindas, teoricamente. O que ele criticou e o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo (hoje, financeiro, fundado na especulação), geradora de exclusão social, miséria, ignorância, violência e crises. Marx será o filósofo do século XXI. Será?