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Política
Por LUÍS JUETÊ em 24/06/2013 às 21:54
‘Não há espaço para o atrelamento de políticos’
Professor de Comunicação Social da Uern analisa a onda de protestos que se espalha pelo país
Reprodução
Professor-doutor Jefferson Garrido, do departamento de Comunicação Social da UERN

O professor-doutor Jefferson Garrido, do departamento de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) afirmou que, embora alguns agrupamentos político-partidários estejam tentando tirar proveito da onda de protestos que se espalha pelo Brasil, o próprio movimento popular em si não abre espaço para a partidarização.

  Entrevistado pela editoria de Política da GAZETA DO OESTE, o professor universitário ressaltou que as manifestações, sem ingerência de agremiações partidárias ou mesmo de agentes políticos, reforçam ainda mais o desgaste dos detentores de mandato junto à população brasileira.

  “Acredito que os políticos, detentores de mandato, estão todos numa mesma posição de desgaste frente à população, independente do partido que pertençam. O que presenciamos foram movimentações sem ingerência de partidos ou de políticos, tendo os manifestantes repudiado as bandeiras partidárias presentes nos atos”, analisou o professor Jefferson Garrido, que possui doutorado em Comunicação, na linha de Midiatização e Processos Sociais na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS).

 Ele também prevê dificuldades para a presidente da República, Dilma Rousseff (PT), sobretudo no diálogo com a população. Garrido entende que a chefe da Nação será severamente criticada ao detalhar os gastos promovidos pelo Executivo para viabilizar a Copa do Mundo de 2014.

 Por outro lado, assinala o doutor, a oposição em nível nacional ganhou um excelente discurso a ser utilizado no processo eleitoral do próximo ano. O professor entende que figuras como a ex-senadora Marina Silva assim como o ministro Joaquim Barbosa podem se beneficiar politicamente deste atual momento do país, marcado por protestos em todo o Brasil.

 “Já a oposição tem em suas mãos o discurso de combate ao desperdício do dinheiro público, embora não ataque diretamente a realização do mundial no Brasil em 2014. Partidos como o da ex-senadora Marina Silva e o partido que receber em seus quadros o ministro Joaquim Barbosa, caso ele decida entrar na vida política, terão uma forte probabilidade de conquistar uma significativa parcela eleitoral. Agora não podemos descartar a grande força que o PT e os seus aliados possuem entre as massas mais populares do Brasil, em virtude dos programas sociais que o governo administra e da força do ex-presidente Lula”, raciocinou Garrido.

  BIOGRAFIA – Jefferson Garrido é graduado em Comunicação Social - habilitação Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e possui mestrado em Letras - Estudos da Linguagem, área de concentração em Linguística Aplicada, pela mesma universidade, concluído em 2003. Concluiu o doutorado do Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), em São Leopoldo/RS.

  Leciona no ensino superior desde agosto de 2003 nos cursos de Jornalismo, Relações Públicas e Publicidade e Propaganda e possui amplo conhecimento profissional em agências de propaganda e veículos de comunicação desde 1997. É professor-adjunto IV do Departamento de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.   

 Tem experiência na área de Comunicação Social e estudos com ênfase em Jornalismo, Publicidade e Propaganda, atuando principalmente nos seguintes temas: Estudos de Midiatização e Circulação, Teorias do Agendamento (agenda-setting), Mass Media, Divulgação Científica, Jornalismo Ambiental, Estratégias Argumentativas, Análise do Discurso, Ideologia, Outdoor, Veículos Impressos, Publicidade, Atendimento e Planejamento de Campanha, Redação Publicitária, Retórica, Consumo, Pesquisa de Marketing e Estratégias de Marketing.

 

GAZETA DO OESTE – Como o Sr. analisa os protestos que se espalham pelo país?

Jefferson Garrido – Os protestos refletem o momento de insatisfação que vive a sociedade brasileira nos seus diversos aspectos. Tanto na política, com a divulgação de sucessivos escândalos, como nas promessas governamentais não cumpridas de investimento em saúde, educação e segurança, e ainda nos elevados gastos com investimentos para a Copa do Mundo em Estados pobres, como o RN. Esses fatores, aliados ao descaso que a própria mídia faz dos acontecimentos, começaram a causar uma repulsa social o que tornou inevitável os protestos em via pública, unindo gerações e classes sociais. O aumento das passagens de transportes foi uma justificativa mais latente, embora outras bandeiras, como a própria rejeição da PEC 37, ainda renderão muitas manifestações.

 

GAZETA DO OESTE - Em sua opinião, quais os resultados das manifestações?

Jefferson Garrido – O despertar da classe política para o pensamento da opinião pública e a certeza que os protestos geram resultados é, sem dúvida, a grande vitória até agora. As mobilizações fizeram os preços das passagens serem reduzidos e mostrou o grande potencial que tem as redes sociais na convocação de atos públicos. Muitos outros resultados serão obtidos com o povo indo às ruas.

 

GAZETA DO OESTE – No aspecto político, quem ganha e quem perde com os protestos?

Jefferson Garrido – Acredito que os políticos, detentores de mandato, estão todos numa mesma posição de desgaste frente à população, independente do partido que pertençam. O que presenciamos foram movimentações sem ingerência de partidos ou de políticos, tendo os manifestantes repudiado as bandeiras partidárias presentes nos atos. A presidente Dilma e os seus aliados devem perder credibilidade ao tentarem explicar os grandes gastos com a construção de estádios, enquanto a educação paga os mais baixos salários aos docentes e a saúde agoniza com filas intermináveis e com unidades sem estruturas de atendimento, sem medicamentos e sem profissionais. Já a oposição tem em suas mãos o discurso de combate ao desperdício do dinheiro público, embora não ataque diretamente a realização do mundial no Brasil em 2014. Partidos como o da ex-senadora Marina Silva e o partido que receber em seus quadros o ministro Joaquim Barbosa, caso ele decida entrar na vida política, terão uma forte probabilidade de conquistar uma significativa parcela eleitoral. Agora não podemos descartar a grande força que o PT e os seus aliados possuem entre as massas mais populares do Brasil, em virtude dos programas sociais que o governo administra e da força do ex-presidente Lula.

 

GAZETA DO OESTE – Como o Sr. avalia a participação político-partidária nos protestos?

Jefferson Garrido – Nessas manifestações não há espaço para o atrelamento de políticos, nem de partidos. Como já é do conhecimento de todos nós, essas manifestações começaram em Natal, com a Revolta do Busão, e depois se espalhou por todo o Brasil com as mesmas bandeiras de luta. Em Natal, as articulações iniciais foram do PSTU e do PSOL, mas a entrada de cidadãos sem envolvimento político afastou esse caráter partidário que tentaram impor ao movimento. Com isso, os protestos ganharam uma maior credibilidade social e permitiu que pessoas que não acreditavam em participação sem envolvimento político, fossem às ruas exigir moralidade e dignidade com o trato da coisa pública. Apesar de o indivíduo ser político por natureza, ao dizer não aos partidos, o movimento fica bem mais fortalecido.

 

GAZETA DO OESTE – Os protestos deste ano terão consequências no pleito do próximo ano?

Jefferson Garrido – Sem dúvida. Já há indícios de mudanças em cenários eleitorais. A divulgação dos resultados de uma pesquisa realizada pelo Datafolha entre os manifestantes nos diversos Estados onde as manifestações ocorreram, mostrou que na corrida presidencial para 2014 os nomes do presidente do STF Joaquim Barbosa aparece em primeiro lugar, seguido pelo nome da ex-senadora Marina Silva. Esse aspecto faz com que os partidos, principalmente os governistas, busquem alternativas e soluções para tentar entrar na disputa com reais chances de vitórias, já que o pleito do próximo ano elegerá do presidente ao deputado estadual. Será a grande avaliação do pulsar popular nas ruas brasileiras e a oportunidade dos eleitores realizarem seu protesto eleitoral, fazendo valer sua vontade. Não existe mais a figura da reeleição tranquila, nem da eleição garantida, uma vez que o debate de ideias torna-se obrigatório entre os eleitores que estão cada vez mais conscientes da importância do voto.

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