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Brasília, 16 de novembro de 2008
Amigos (as):
PAX!

Li um artigo do D. Armand Veilleux, OCSO, publicado no A.I.M. Monastic Bulletin (no. 59) sobre um tema importantíssimo para nós que sonhamos com a fundação do nosso Mosteiro da Santíssima Trindade: a questão da formação monástica. Trata-se do sumário de um curso que ele dá no Colégio Santo Anselmo, em Roma, a cada dois anos. O título traduz magistralmente o conteúdo: "Chamados a ser transformados à imagem de Cristo" e está baseado em 2 Cor 3:18.
Para este cisterciense nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus, mas feridos pelo pecado, precisamos que esta imagem seja restaurada dentro de nós. Este é o objetivo último da vida cristã e assim também da vida monástica.
O Filho de Deus, que estava in forma Dei, não temeu renunciar à sua condição privilegiada, humilhou-se a si mesmo (Fil 2,6-7), tornando-se um de nós, semelhante a nós exceto no pecado (Hb 4,15). Consentiu em perder a sua forma, sua beleza. Desfigurou-se a ponto de não mais se reconhecível (Is 53,2). Provou a morte. Mas o Pai o ressuscitou dos mortos e o fez sentar-se à sua direita e o fez Kyrios (Fil 2,9). Deste modo, a nós foi mostrado o caminho de retorno à Imagem. Tendo sido deformados pelo pecado, precisamos reformar-nos de tal modo a ser gradualmente transformados na imagem de Cristo ressuscitado.
Esta transformação final, através de um longo processo de reforma ou conversão, é o objetivo da formação monástica. Esta formação deve ser entendida em primeiro lugar, não no sentido de uma atividade exercida por um formador humano sobre outra pessoa, mas no sentido de uma transformação gradual e constante, nunca plenamente realizada, de uma pessoa que, usando dos meios oferecidos pela conversatio monástica, permite ao Espírito Santo que restaure dentro de si a imagem desfigurada e a semelhança perdida.
O tema da Imagem de Deus é central na espiritualidade do monaquismo primitivo. Esta doutrina, que vem de Gen 1,26, é muito cara a todos os Padres da Igreja que se dedicaram a pesquisar o mistério da Salvação. Cada um deles o fez de um modo diferente, mas com a liberdade que é encontrada entre poetas e místicos, e assim esta doutrina se tornou muito complexa e foi apresentada com sentidos com muitos diferentes matizes. Pode ser resumida como se segue: O homem foi criado à imagem (imago) e à semelhança (similitudo) de Deus. Como criatura privilegiada, foi chamado a partilhar da vida divina. Estas condições foram revertidas pelo pecado, mas o homem retém a capacidade de se voltar para Deus (capacitas Dei). Mediante a graça da Redenção e em imitação de Jesus Cristo, o homem é capaz de participar da vida divina. Se sua predisposição para Deus (imago) se desenvolve e se manifesta numa vida contínua de virtude, move-se para a semelhança (similitudo) e acha sua realização em tornar-se a imagem de Deus.
Quando falamos de formação monástica, geralmente queremos dizer formação inicial. Esta, porém, pode ser considerada apenas um elemento ou estágio no processo total de transformação que acabamos de descrever. O objetivo da formação monástica, em todos os seus estágios, não é nada menos do que a restauração da imagem de Deus no monge. É uma transformação progressiva que engloba toda a vida. Para realizar esta caminhada de transformação, o homem tem um modelo, um protótipo: o Verbo, que é a perfeita imagem do Pai e que S. Bernardo denominou de sacramentum salutis (sacramento da salvação).
Nenhum dos Padres do Monaquismo de fato escreveu sobre "formação" - ao menos no sentido que conhecemos a palavra hoje. Entretanto, vemos de seus escritos que eles entendiam claramente que seu papel, quer como abades ou pais espirituais, era o de fazer nascer Cristo em seus discípulos. Sabiam que para levar esta tarefa à sua realização, deveriam levar seus monges à imitação de Cristo. Na verdade, é através da imitação de Cristo que o monge torna gradualmente mais ativa na sua vida esta semelhança que recebeu no momento de sua criação e que a imagem de Deus dentro dele é restaurada.
A idéia, segundo a qual alguém forma um outro na vida monástica como se treina um doutor ou um professor, vem de uma concepção totalmente moderna. Esta abordagem era completamente estranha aos Padres do Monaquismo. Para eles, a vida monástica não era uma realidade em que alguém podia formar outrem, mas, ao contrário, era um meio, ou melhor, um conjunto abrangente de meios, pelos quais uma pessoa permitia a outra ser formada. É vivendo a vida monástica que alguém se torna cada vez mais um monge e gradualmente permite a si mesmo ser transformado na imagem de Cristo.
(..) Na grande tradição beneditina e cisterciense, a vocação de uma pessoa não é um chamado a viver a vida monástica em geral ou mesmo à vocação a uma congregação particular. É o chamado a uma comunidade concreta de irmãos que constitui uma eclesial. É aqui que, após uma provação adequada, promete sua estabilidade, e é com estes irmãos, a menos que a obediência lhe dê outra missão, que ele experimenta o mistério da salvação na Igreja até o fim de seus dias.
A modalidade na qual cada comunidade concreta vive esta comunhão, esta koinonia, tem uma influência muito profunda sobre o desenvolvimento humano e espiritual do monge através de sua existência. Além de todos os "meios de formação" que oferece a seus membros, a comunidade como tal tem um papel da maior importância na formação.
(...) A comunidade monástica não é simplesmente um lugar onde nós praticamos a ascese pessoal. É um local onde buscamos a vontade de Deus juntos. S. Bento desejava que todos os irmãos fossem convocados sempre que algo importante tinha de ser discutido. Isto não é um simples exercício do poder da maioria ou de democracia antes de seu tempo. Significa que todos devem se reunir para escutar o que o Espírito Santo está dizendo a cada pessoa para o bem de todos. Mesmo se é o abade que tem a responsabilidade final de tomar uma decisão, o capítulo conventual é a ocasião para cada pessoa exercitar um ato de co-responsabilidade comunitária e assim crescer na compreensão de sua própria responsabilidade.
Uma comunidade sadia é também um lugar de crescimento emocional e afetivo. As relações pessoais que são capazes de se desenvolver no coração da vida comunitária são tanto uma escola que capacita uma relação profunda com Deus como uma expressão sacramental daquela relação. Uma vez que a comunidade cristã incorpora uma nova maneira de considerar as relações humanas, elas são vistas e vividas como uma expressão sacramental do mistério da Igreja. Estamos lidando com algo muito mais profundo do que um vago sentimento comunitário. Ainda assim deve-se tomar cuidado para não cair na armadilha de uma unanimidade muito estrita, que termina por privar os indivíduos de sua identidade pessoal".
Outro meio identificado por D. Armand é a Santa Regra. Para ele Cristo se fez obediente com uma obediência através da qual sua vontade se identificou totalmente com a do Pai. É por este caminho de obediência, em imitação a Cristo, que o monge permitirá que o Espírito gradualmente restaure a imagem de Deus dentro dele. O que queremos aqui dizer é obviamente a obediência à vontade divina, mas esta obediência se encarna em toda a ação da vida diária.
(...) A vida comum e a Regra que lhe dá estrutura são os meios para alcançar o amor de Deus no amor dos irmãos, preferindo o bem da comunidade à vontade própria, a vontade divina como expressa na Regra e colocada em prática nas situações concretas pelo superior para o bem de si. Da mesmo maneira, a obediência mútua da qual S. Bento fala, é vivida como um serviço e assim como um exercício de união de vontades que levam à pureza de coração e à visão de Deus.
(...) Na tradição beneditina o abade, que representa o Cristo em sua comunidade, é o pai espiritual, mestre e curador. Seu papel é obviamente muito diferente daquele dos superiores das comunidades religiosas com tradições mais recentes. Se é justo que seja um irmão entre irmãos, ele, contudo, não deve esquecer que foi chamado para ser um pai - não porque os outros devem ser como crianças ou adolescentes ante ele, mas porque tem a responsabilidade de fazer Cristo nascer neles.
Alguns elementos da ascese monástica realçados por D. Armand:
1. A cruz - O monge entra no Mosteiro para seguir a Cristo e retornar pelo caminho da obediência ao Pai, de quem se separou pela desobediência. Foi mediante o sofrimento que o próprio Filho de Deus aprendeu a obediência (Hb 5,8). Não há outro meio para o cristão que deseja seguir a Cristo, e alem disto Cristo é bastante explícito nos Evangelhos com relação às exigência de tal seguimento: "Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga".
2. A oração - A oração monástica estritamente falando é a oração contínua. É preparada pela leitura, estudo e meditação sobre a Palavra de Deus; em comunidade é expressa no Ofício Divino e abre-se para a lembrança da presença de Deus tão contínua quanto possível.
3. A Lectio Divina - O monge deve aprender, desde o início de sua vida monástica, a escutar tão intimamente quanto possível a Deus. Deve deixar-se ser penetrado, transformado, desafiado, transformado pela Palavra de Deus.
4. O Trabalho - Para S. Bento o trabalho essencial da vida monástica: "Serão verdadeiros monges se viverem do trabalho de suas mãos" (RB 48:8). O trabalho, quer manual, quer intelectual e, em alguns casos, pastoral é o contexto no qual a capacidade criativa ou a habilidade de colaborar com os outros e com Deus se torna evidente.
Que a Trindade Santa nos inspire sempre, a Virgem Maria seja o nosso modelo e o nosso Pai S. Bento a nossa grande referência nesse processo de restauração da imagem de Deus em cada um de nós.