IR À CANTORIA OU SER O PRÓPRIO CANTADOR

David de Medeiros Leite
Professor da Uern

Além dos magistrais discursos de Odilon Ribeiro Coutinho, meus ávidos olhos de jovem militante não conseguiam enxergar "novidade nova" no decorrer da campanha eleitoral de 1982. Até que um dia, em pleno centro urbano de Mossoró, deparo-me com um comício diferente; ou, pelo menos, algo fora do comum: um jovem candidato a deputado federal havia estacionado sua Kombi de som e iniciava a fala aos circunstantes, dizendo que deixaria outro microfone em uma das mesas do bar da esquina, à disposição de quem desejasse lhe formular perguntas.
E o meu espanto aumentou quando ele, o candidato, recitou, e distribuiu, uma poesia de sua autoria intitulada: Ir à cantoria ou ser o próprio cantador. Misto de apresentação pessoal e convocação à luta em defesa da democracia, o poema retratava o momento político que vivíamos, intercalando pitorescas imagens sertanejas, em meio a corajosas denúncias. Vale lembrar que ainda estávamos sob o tacão do regime de exceção, e era preciso ser forte e aguerrido para contestar a situação.
Passados tantos anos, verifico que, atualmente, François Silvestre está fazendo o "diferente" na literatura potiguar. Na essência, François não mudou: carrega o mesmo caçuá transbordante de talento e ousadia. Se não peguei o microfone naquela tarde para louvar a iniciativa inovadora do comício-debate, desejo agora fazer breve comentário sobre seu (dele, François) mister literário.
Nos últimos anos, François vem lançando uma esteira de bons livros. Cito dois, especialmente: O mel de Benquerê e A pátria não é ninguém. O primeiro reúne deliciosas crônicas relativas a fatos e personagens de nosso sertão, e o segundo, em forma de romance, retrata o sombrio período da ditadura militar, numa narrativa que sugere um tom autobiográfico, esboçando, propositadamente, tênue linha entre realidade e ficção.
Já o recém-lançado Esmeralda - Crime no Santuário do Lima configura-se um romance policial ambientado no Rio Grande do Norte, e cuja trama gira em torno do assassinato da cigana Esmeralda, ocorrido, paradoxalmente, em um ambiente de oração. Os suspeitos são cuidadosamente caracterizados, tanto em seus aspectos psicossociais quanto em suas habilidades manuais, sendo tudo condizente, e habilmente pensado, para o desenlace do drama.
Enfim, além do estilo que lhe é peculiar - frases curtas, mas incisivas, e um linguajar intencionalmente calcado na oralidade popular nordestina - François Silvestre realça, nesse Esmeralda - Crime no Santuário do Lima, outras duas louváveis características: a poética que perpassa toda a obra, do que resultam em belas construções, e o manejo dos instrumentos literários capazes de dotar o romance de uma urdidura que prende a atenção do leitor, até o desfecho. O que não é pouco, diga-se de passagem.




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