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POESIA POPULAR NORDESTINA

Aldaci de França
Professor e poeta repentista

A poesia popular nordestina é compreendida como resultado e/ou composição advinda de dois grandes grupos que a produzem: o primeiro formado pelos que praticam a Cantoria - prática da poesia oral cantada e produzida por duplas de repentistas ou cantadores, cujos versos elaborados momentaneamente são compreendidos como expressão do improviso, e o segundo constitui-se através dos cordelistas que também recebem a denominação de poetas de bancada, que narram sobre temáticas diversificadas e sempre procurando tratar com o maior zelo a construção da estrofe, no que se refere ao aspecto estético necessário à poesia popular nordestina.
Quanto à Cantoria que muitos confundem com a Literatura de Cordel, ou inversamente, os seus verdadeiros atores são mais cobrados por ser essa prática de uma riqueza surpreendente no que diz respeito ao volume de formas poéticas, onde se atribui a existência de cerca de 100 formas, enquanto que a Literatura de Cordel ou Literatura de folheto, como queiram, sua composição limita-se às sextilhas, septilhas e raramente a mais uma ou duas formas poéticas.
A grande semelhança da Literatura de Cordel com a Cantoria está na técnica necessária à elaboração das estrofes, onde a rigidez para aplicação dos critérios, como rima, métrica e oração, tem sido uma exigência inevitável.
Verônica Moreira em O Canto da Poesia, sobre a técnica da cantoria e da Literatura de Cordel, assegura: "A Cantoria tem uma técnica rígida onde são visados a rima, a métrica e o conteúdo (também chamado de oração). Ainda acrescenta que "a rima pode ser fonética: levando em conta o som das palavras. Este modo é pouco valorizado entre os poetas populares". (MOREIRA, 2006:18)
Não há como omitir a ascendência da poesia popular nordestina, tanto com relação à oral cantada, à Cantoria, como à escrita, à Literatura de Cordel, em nível de Nordeste, sendo que em algumas regiões essas manifestações da cultura popular estão mais presentes e numa efervescência bem estimuladora, em outras, o movimento está mais tímido, mas se organizando e crescendo gradativamente, o que prenuncia a conquista do reconhecimento e do espaço merecido.
Nos Estados: Rio Grande do Norte, Pernambuco, Ceará e Paraíba, as promoções de eventos voltados para a propagação da poesia popular nordestina acontecem freqüentemente. Anualmente, em Recife (no pátio de São Pedro, centro, vem sendo a cada ano, realizado um COCANE - Congresso de Cantadores do Nordeste, além de outros eventos similares em espaços diversos da cidade) Caruaru, e em cidades do interior do Estado, são realizados grandes festivais e apresentações de repentistas em feiras livres. Na Paraíba (em Patos, Campina Grande, João Pessoa, Pombal e demais cidades) é seguido o exemplo de Pernambuco. No Ceará (em Fortaleza, Limoeiro do Norte, Juazeiro do Norte, Tabuleiro, Quixadá), são realizados grandes encontros de repentistas do Nordeste, além das grandes cantorias de "Pé de Parede".
No Rio Grande do Norte a ascensão da poesia popular nordestina se afirma a cada dia. Em Mossoró, temos os cordelistas Antônio Francisco (da Academia Brasileira de Literatura de Cordel), Aldaci de França, José Ribamar, Concris, Crispiniano Neto, Severino Inácio, Nilson Silva, Luiz Antônio, Luiz Campos, Neuman Miranda, Cícero Laurentino, Ademar e Glauter. O Curso de Poesia Popular Nordestina, da Fundação Municipal de Cultura e por nós ministrado, revelou novos poetas, resultando em duas Antologias em que consta a produção poética dos alunos: Antônia Filgueira, Horácio de Medeiros, Cláudio Henrique, Arinilson Alves, Nildo, Edi Ferreira, Antônio Lourenço, Benício Júnior, Rosane Barros, Conceição Nogueira, Raimunda Cavalcante, Ioneide, (espero não estar esquecendo alguém, se o estiver perdoem-me) todos capazes de direcionar sua produção poética ao cordel, por dominarem as técnicas necessárias a esse fim.
No tocante à Cantoria em Mossoró, é um movimento que vem crescendo surpreendentemente a cada ano. Registre-se aqui, por exemplo, o VIII Festival de Repentistas do Nordeste no Mossoró Cidade Junina, que em junho passado o coordenamos, e o evento aconteceu em três noites, com um público, em termos quantitativos, bem superior ao público presente nos eventos acontecidos em anos anteriores, o que foi considerado pelos críticos da poesia popular e pela coordenação do Mossoró Cidade Junina como o mais legítimo e autêntico projeto, dentre os demais da Festa Junina. Cantorias em Bairros, o Festival da Casa do Cantador e o da Feira do Bode, são outra realidade.
Acrescentamos ainda que o Projeto Clube da Poesia realizou num período de três anos, no Clube do Sinte e na Aceu, 23 cantorias. O referido projeto estava com as suas atividades em recesso, mas o retomamos, dessa feita, em parceria com a Aspetro onde duas cantorias já foram realizadas, sinalizando assim que outras boas virão.
Em Natal acontecem festivais de cantadores anualmente e outras atividades culturais, voltadas para a difusão do repente. No interior do Estado, temos as cidades Patu, João Dias, Caraúbas, Pau dos Ferros, Rafael Fernandes e demais municípios contemplados com festivais e/ou encontros de repentistas.
É comum em emissoras de rádio depararmo-nos com os versos improvisados. Em Mossoró, os admiradores do repente podem sintonizar a Rádio Rural nas quintas-feiras e nos sábados e ouvir cantoria. Outras opções estão nas FMs, 99.1 e 103.3 Universitária, sendo que na primeira é veiculado o programa "Cantoria Nordestina", com Aldaci de França e Convidados, das segundas às sextas-feiras, sempre das 6h30 às 7h. A segunda faz constar em sua programação "Nossos Versos de Repente", também com Aldaci de França e convidados, das 6h às 7 da noite e das segundas às sextas-feiras.
Indubitavelmente, teríamos o que mais relacionar como algo de concreto na propagação e aceitação da Cantoria e do Cordel, mas o já explicitado é suficiente para constatarmos a ascendência da poesia popular nordestina.