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UERN 40 anos - Bastidores 2 Peças
naturais para estudo de anatomia
Os cientistas sempre correram atrás de peças, imagens,
sinais, fatos ou acontecimentos da natureza procurando a todo custo desvendar
seus mistérios. Há registros de buscas e pesquisas em todas
as áreas do conhecimento humano, em vários recantos do mundo
e em diferentes épocas. A medicina, nesse aspecto, é pródiga.
Vejamos um exemplo.
Até o início do século XX tanto em Portugal como na Irlanda
do Norte, França e outros países europeus vizinhos eram proibidos
o estudo da anatomia humana em cadáveres. A religião católica
não permitia essa prática. Quem tentasse dissecar um corpo humano
para estudo cometeria um sacrilégio e seria excomungado. Mesmo em caráter
sigiloso e dentro das universidades.
Caso
Brien
Um fato, entretanto, ficou inusitado. Em 1758, o célebre médico
escocês John Hunter encontrou-se casualmente com o gigante irlandês
O'Brien, nascido em 1728. O'Brien tinha 2 metros e setenta centímetros
de altura. O médico catedrático logo se "apaixonou cientificamente"
pelo gigante e quis persuadi-lo a deixar, após a morte, seu esqueleto
a serviço da ciência. O'Brien era um solteirão, grosseiro,
de pouca escolaridade, filho único, seus pais já haviam falecido,
e por ser profundamente religioso não se animou nenhum pouco com a
proposta do professor. Mas o mestre não desistiu. Queria deixar aquele
legado para a história. Passou a vigiar o gigante. Este, sentindo-se
acompanhado, tentou fugir, mudou-se para países vizinhos diferentes.
Passou sistematicamente a evitar o dr. Hunter. O mestre, por sua vez, sabendo
que os gigantes morrem cedo, para não perder a oportunidade de possuir
tão raros ossos começou a segui-lo. Apertou o cerco ao gigante,
encarregando seu melhor criado, senhor Howison, mesmo às escondidas,
a ficar totalmente à disposição de O'Brien.
Decisão
Sentindo aproximar-se a morte e temendo a dissecação,
o gigante providenciou tudo meticulosamente: seu corpo devia ser vigiado dia
e noite por pessoas pagas por ele próprio e no dia exato seu corpo
seria colocado em um caixão de chumbo. Só então deveria
ser, altas horas, levado de navio ao mar alto e lá jogado.
Hunter soube das pretensões de O'Brien. Tentou persuadi-lo, novamente,
em vão, o gigante além de religioso, adorava sua carcaça.
Finalmente, um dia, o gigante sofre infarto fulminante e morre.
No momento exato, o criado Howison conseguiu embriagar os guardas e depois
convencê-los que levar o corpo do gigante para faculdade seria muito
melhor e mais fácil para todos. Depois de horas a fio de discussão,
o corpo foi colocado num carro rodando várias horas até encontrar
a carruagem do médico para onde foi transferido.
Registro
Corpo levado para a faculdade, colocado em formal, depois dissecado,
todos os ossos bem limpos, posteriormente, foram articulados e seu esqueleto
hoje pertence ao Colégio Real de Cirurgiões em Londres, onde
está exposto, para quem quiser visitá-lo. Acertou o velho professor,
pois de lá até hoje, segundo o mestre Galvão de Queiroz
Neto, que vem pesquisando fato semelhante em todo mundo, nunca mais nasceu
ninguém com a estatura de O'Brien.
Mossoró
Quando vejo os professores de anatomia do Curso de Medicina da Faculdade de
Ciências da Saúde de Mossoró dissecarem um corpo e melhor
assistir seus alunos nas salas de aulas, fico a imaginar como aquele corpo
ali chegou. Ao mesmo tempo como se assemelham as ações da época
de Hunter com o momento atual. Continuam as mesmas dificuldades. Na era Hunter,
o problema era religioso, hoje é legal, isto é, há toda
uma legislação que protege o corpo sem vida como se todos os
casos fossem frutos de delito. Para a atual Constituição de
1988, o corpo sem dono, ou seja, encontrado na rua, a esmo, indigente, sem
identificação, pertence ao Estado. A doutrina recomenda que
aquele corpo, mesmo sem vida e sem parentes, faz parte do patrimônio
humano e se há uma baixa ao mesmo, tem que ser registrada e protegida
com identificação através de sepultamento em cemitério
público se resguardando para um dia quando aparecer parentes que seja
devolvido à família. A verdade é que o corpo, mesmo para
uso nobre em nome da ciência continua difícil para ser adquirido.
Para o processo penal, ele é "peça do crime", conseqüentemente
objeto pertencente ao Estado, até um dia ser entregue para alguém
de direito. O corpo ignorado passará alguns dias na guarda do Itep,
caso de Mossoró e posteriormente sepultado por ordem judicial e bem
identificado em cemitério público.
Bonecos
Dia-a-dia, os estudantes das ciências da saúde (medicina,
enfermagem, odontologia, educação física, fisioterapeutas
e outros) mais recorrem aos manequins, espécie de bonecos simuladores
buscando neles aperfeiçoar seus estudos. São peças com
contornos anatômicos quase perfeitos confeccionados com matéria-prima
especial, geralmente derivados do polietileno com formas e aspectos muito
semelhantes a peças anatômicas naturais e que muito contribuem
para o aprendizado profissional. Aceito e utilizados nas melhores universidades
do mundo civilizado. Entretanto, uma coisa é certa. Nunca essas peças
fabricadas irão substituir por completo as peças naturais do
corpo humano. Por isso é necessário existir nos anfiteatros
as duas opções.
Kits
de aparelhos e sistemas
Telefonei, quando diretor da Faculdade de Medicina de Mossoró,
faz quatro anos, para um professor de anatomia da Faculdade de Medicina da
USP em S. Paulo, filho de um antigo amigo meu, contemporâneo e também
professor daquela conceituada instituição. Indaguei como eles
estavam se comportando em relação à aquisição
de corpos para estudos em suas faculdades da área da saúde.
Escutei:
- "Aqui também é difícil, professor. Mas, como a
cidade é enorme há mais opções". E acrescentou:
- "O senhor precisando com urgência, podemos lhe enviar kits de
sistema circulatório, respiratório, renal, nervoso ou qualquer
outro. Posso lhe mandar, se for o caso, também só um braço,
uma mão, uma perna, um útero, um coração, pulmão,
metade do cérebro, como queira. Cada peça tem um preço
diferente".
Sem problema
Agradeci, procurei falar com Onildo, seu pai, disse-me que telefonasse
no dia seguinte. Combinamos o horário.
Liguei e ao final de uma longa conversa sobre o assunto acrescentou rindo:
- "Milton, para adquirir corpos hoje, é preciso continuar seguindo
os passos de Hunter. Claro, com as devidas atualizações".
Captei vossa mensagem, mestre.
Há 4 anos, venho seguindo os passos do velho mestre Onildo da Silva
Melo. Está dando muito certo. Até hoje nossos estudantes de
Medicina não têm se queixado em não aprender anatomia
por falta de cadáveres em nossos anfiteatros. Há peças
suficientes para estudos sem precisar estar incomodando nossos juízes.
Tudo legal e legítimo.
E-mail:
tcm1@uol.com.br – Tel. (084) 316-0600