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MINHA ÚLTIMA CRÔNICA DO ANO

Clauder Arcanjo - Professor - clauder@pedagogiadagestao.com.br

São exatamente 3 horas e 30 minutos da tarde do dia 29 de dezembro de 2008. E, agora, sentado frente ao computador, pretendo escrever a minha última crônica do ano.
Sim, resolvi escrever agora porque sei que as palavras poderão me fugir capiongas, tomadas pelo clamor da festa, caso eu decidisse redigi-la na última noite do ano. Para essas datas extremas, só mesmo a pena de um grande mestre. Os pequenos, como eu, se acovardam, se vêem de mãos limpas, de língua presa, sem nada a dizer e a proferir. No máximo, no máximo, uma legião de monossílabos irritantes ou uma penca de lugares-comuns escoam pelos nossos lábios murchos. E, como detesto os clichês na literatura, antecipo e cumpro com o meu sagrado dever de cronista.
Devido ao fechar do ano, eu bem sei que o motivo é digno. Cometerei falhas, esquecerei coisas, escorregarei algumas vezes no tapete liso da gramática, no entanto o sentimento cristão da festa de ano-novo me redimirá as faltas, pois a remissão invade essas horas o coração mais crítico. Dizem até, falam assim os utopistas, que o perdão reinará absoluto na virada do ano, do 31 de dezembro para o primeiro de janeiro que se avizinha. Sou otimista, porém não acredito em milagres nem tampouco em contos da carochinha.
Como sou caturro, pretendo dedicar a última crônica ao ano que se vai: 2008. Velho, enxovalhado, esquecido, ninguém mais o saúda; muitos, parece, já o enxotam a botinadas. Por trás dos votos de um maravilhoso ano-bom, percebe-se um desdenhoso malquerer com o que nos fez companhia nos últimos meses. Bocado comido, bocado esquecido, e, no caso, cuspido fora.
Em 2008, não fiz valorosas obras, mas, também, não cometi grandes insanidades, nem pecados veniais. Na conta das minhas faltas com o Homem, ficaram invejas menores, uns pensamentos turrões, uns mal-agradecidos de costume, umas orações procrastinadas, e o adiamento de algumas ajudas planejadas aos irmãos excluídos. Enfim, um bocado de coisa foi postergada. Pretendo botar tudo num saco grande, e jogar por cima do muro, para o terreno do ano de 2009.
Confesso, já fiz isso uma porção de vezes. Desde que me entendo como gente. Aprendi com os mais velhos, e sinto que estou passando essa bendita (maldita?) mania para os mais novos. Um dia desses flagrei o meu filho mais velho dizendo, em alto e bom som: "Pode deixar, pai, no ano que vem eu melhoro!"
Calado estava, calado fiquei. É claro que o meu anjo da guarda, com o seu celestial senso de humor, riu à socapa (aproprio-me desta expressão de Machado de Assis; não atribuam o fato a simples plágio, mas sim a uma digníssima homenagem por parte deste escrevinhador - é sempre bom conter a nossa conta de pecado do novo ano. De onde retirei esse termo? Penso que foi do conto "Missa do Galo", bela criação do Bruxo do Cosme Velho).
Contudo voltemos à última crônica de 2008. A pena se alonga, e eu, de leve, vou me deixando levar pelas malditas digressões! Ô mal traquinas e insidioso, amigo leitor!
Pois bem. Entrarei, então, mais fundo na conta do balanço. Em 2008, escrevemos algumas crônicas. Aqui dividimos segredos, sentimos saudades, reencontramos amigos, saudamos autores e livros, comemoramos fatos, discordamos de algumas festas, e sofremos várias vezes juntos. O leitor, você, sim, esteve bem junto dos meus passos. Lembro até do título da primeira página de 2008: "Confissão". Na largada, a marca da melancolia, ela que quase sempre me aperta os calos e o coração: "Confesso que chorei. A dor me pisou os calos o dia todo, era fim de ano. Inquieto, andava de um lado para o outro, sem coragem para nada, apenas o peito oprimido, como se uma tristeza funda habitasse em mim. E eu, sempre amigo do riso, da boa galhofa, vi-me caturra e macambúzio, como eu gosto de saudar aqueles que desfilam pelas ruas de cenho fechado."
Na semana seguinte, publiquei os beijos de Dôra: "Quando a conheci, ganhei dela um beijo. Não um beijo qualquer, mas sim um beijo de Dôra. Caliente, como, desde aquele dia, o defini. Um inesquecível beijo da paraibana Dôra Limeira. Minha querida amiga." Lembra?
Vieram outros textos, e passamos a nos conhecer melhor, meu caro leitor, todo cronista se revela pelas palavras, por suas palavras, suas máximas palavras. Discorremos acerca dos fantasmas de Ernesto Sábato, o mestre argentino; fiz a conta dos meus haveres, e reclamei do Pancadão no carnaval.
Também houve tempo de termos uma prosa na companhia de Ezra Pound, de Ricardo Reis, de Jorge Fernandes; dei alguns pitacos na vida dos outros (e quem não o faz?). Relembrei máximas do inesquecível Nelson Rodrigues, o Anjo Pornográfico. Joguei brasas do Caderno de Fogo, de Carlos Nejar, na brancura da página do jornal de domingo. Isso sem citar, que, de quando em vez, neste espaço Questão de Prosa, apresentei, em primeira mão, alguns dos meus minicontos, exercício literário que vem me encantando e que fiz questão de dividir com a meia dúzia dos meus leais leitores. "Um assombro!"; alguns me disseram, plagiando o título de um desses minis.
Vesti-me de conselheiro, daqueles implicantes e rabugentos, ao me embrenhar no terreno pantanoso da perigosa armadilha da presunção. Publiquei uma missiva ao meu amigo velho, Chico Rodrigues, meu terceiro pai, por legítima adoção; declarei paixão pela Armadilha de vidro, de Diva Cunha; convoquei o companheiro Acácio para sofrer com os desmandos da politicalha; decifrei rabugices, e naveguei por minhas certezas.
Proseei, enfim, em muitas ocasiões, sem nenhum compromisso além do que me prende ao sangue da pena; e me arvorei professoral quando postei no centro de uma das páginas: "A memória é apanágio dos grandes homens. Nenhum de nós, seres históricos e complexos, se faz sem o fogo redentor das lembranças." Eu, sempre tão esquecido de mim mesmo.
E 2008 não ficou por aí. Lavramos o conto "Julgamento", não foi amigo Jessé, hoje em solo salmantino?
Quando o Natal chegou, fiz minha viagem à província, pois não posso passar um ano sem beber a água santa que escorre pelas areias brancas do rio Acaraú. Se assim não procedo, o vocábulo amarga, o verbo enferruja, e a sentença empalidece. E você há de convir, leitor, que ninguém agüenta um escriba desse naipe, pálido.
Enfim, 2008 não foi tão mal, e que 2009 se mexa para não me decepcionar. Estarei aqui cobrando o meu quinhão de felicidade; e tudo que por acaso me advier será dividido com vocês, meus leitores, pois eu sou um provinciano que tem o papo deveras furado.
Feliz 2009! Paz, saúde, e muita literatura. O resto?!... O resto, a gente inventa.