
ARTIGOS
TRÊS
MINICONTOS PARA UM DOMINGO DE MARÇO
Clauder
Arcanjo - PROFESSOR
Insone
"- Hei de encontrar a minha princesa!" Garoto, após a
matinê, saía pelas ruas, a suspirar de paixão.
"- Encontrarei uma boa companheira!" Rapazote, após o
cinema, à toa pela cidade, à espera de sua alma gêmea.
Hoje, sozinho e insone, após assistir ao último filme na
tevê, as imagens de Rita, de Grace, de Elizabeth, de Tônia,
de Ingrid, de Audrey, de Katharine, de Sônia, de Marilyn, de Vivien,
de Ava, de Marlene, de Bette, de Sandra, de Lauren, de Greta, de Carmen,
de Olivia... Únicas companheiras na solidão.
Mudança
Seis horas. O pulo da rede. Escova rápida nos dentes. De rosto
lavado, o café sorvido em goles apressados.
Sete horas. Sentada no sofá da sala, à espera do chamado.
Um terrível e estridente grito. De tremer as carnes e o espírito.
Pavor pontual.
Todos os dias, há exatos cinco anos. Uma tradição
da nova casa. Costumes do padrasto, seu Librório, respeitado comerciante
da provinciana Francópolis.
Manhã de sábado. Quando o sol lambia os beirais, o levantar.
Antes das sete, pronta na saleta; porém, nem sinal do seu Librório.
Com pouco, a voz, em cadência esquisita. Diferente. Manhosa, solícita,
melada, bem baixinha.
Felizarda, apavorada, com saudade dos gritos.
A cor da sombra
"Quem me encontra na rua, andando em plena calma,
Sem dizer a ninguém as privações que passo,
Entende que adormeço em pálido regaço,
Não diz que tenho a cor da sombra dentro d'alma".
(Ferreira Itajubá)
Na rua, um
fiapo de sombra como única proteção. Na pedra do
Mercado, os cachorros com o sono da noite. Baleia, Piau, Tubarão,
Piaba, Traíra... Únicos peixes na fome do lugar.
Em passos miúdos, o chapéu de massa na mão nervosa.
O contraste da elegância com tudo em volta. O retorno, após
quarenta anos.
Na memória, bem no fundo, a lembrança dos seus. Na longínqua
fazenda Triunfo da Esperança.
- Não carecia não, meu senhor! Não carecia.
As mãos, em garra, estendidas, apesar da voz a dizer o contrário.
- Não carecia não, meu senhor! Não carecia.
O naco de pão a gerar desavenças entre os pequenos.
Então, na Matriz, o sineiro anuncia a passagem de um anjinho, avivando-lhe
ainda mais a cor da sombra dentro do peito.
- Não carecia não, meu senhor! Não carecia.

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