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EPISTOLAR
CLÁUDER
ARCANJO - PROFESSOR
Os Correios
à campainha, e uma carta me chega às mãos. Em meio
à manhã quente, leio as palavras de Mica. Que vieram de
longe, e eu nem esperava.
"Ah, meu amigo, quanta ternura na sua tristeza. Quanto sofrimento.
Ai, beleza tanta. Adoro o seu jeito de expressar os sentimentos, esse
seu modo, hum, que lindo. Sinto como se fosse um irmão muito querido.
Essa minha amiga Rizó me conhece demais. Ela sabia que você
capturaria a minha alma. Ela, faz tempo, também já o fez.
Ah... bichinha!"
Lá fora, um sol sem testemunhas. Escaldante, não propenso
a intimidades. A lembrança de Mica. Radicada na Mauricéia,
distante, mas, de uma forma difícil de dizer, sempre presente.
Mais, muito mais, do que os que me são próximos. Até
do que minha única prima, vizinha, quase porta com porta comigo,
contudo a léguas e léguas de uma nesga de aproximação.
"Sobre a revista que você me mandou, recebi-a e estou degustando.
Admirei a qualidade gráfica. Pena, não encontrei nenhum
artigo, matéria, conto, escrito qualquer seu. Até Severo,
cabra de quem gosto um bocado - pena não ser correspondida, ele
se dá muito bem com a minha irmã, com-ple-ta-men-te diferente
de mim: alta, magra, linda e morena. Inteligente... Muito querida."
Ela nem percebeu a artimanha do meu heterônimo. Enganei-a, sorri
cá comigo. Mica e sua mania de se humilhar. Ela nem parece desconfiar
das duas gemas que brilham em sua face angelical. Daquelas pedras preciosas
que nos confortam só de nos sabermos por elas vistos, por elas
acompanhados. Sempre preferi Mica; a irmã é inteligente,
bonita, mas meu coração correu mesmo foi para o conforto
da amizade forte, profunda, diria até maternal, de Mica.
"Sabe, uma boa parte da minha infância passei nessas suas tórridas
terras. Tenho alguns parentes por aí. Uns sequer conheço.
Minha avó morava na casa onde hoje há uma agência
do Banco do Brasil. Não me pergunte a rua, não me lembro.
Só sei que havia uma cisterna enorme, um pé de limão
que parecia árvore de Natal arredondada, com bolinhas de ouro a
enfeitá-la. Um peru se armava todo quando o meu avô chegava
perto dele no quintal. O meu tio tinha uma cabeleira cheia de brilhantina
e uma moto superpotente, as moças o arrodeavam. E ele sempre cheiroso.
Ficava - a casa - perto de uma praça onde existia um cinema. Coisa
muito antiga, mesmo. Minha avó me dava remédio para acabar
com as lombrigas e quase acabava comigo. Depois, para compensar, descascava
e cortava manga espada - sou doida por mangas -, deixando sempre um pouco
da casca, que era para não me fazer mal."
Um riso despontou em meus lábios crestados pela casmurrice dos
dias. Só mesmo Mica!; pensei. Toda vez ela dá um jeito de
me pôr no colo da alegria. De uma maneira quase casual, que nem
me dou conta. Danadinha! Artes de uma pitonisa, desconfio.
"À época, havia o padre Moca, da história do
bacorinho que foi batizado como xaréu. Conhece? Ai, meu Deus, tenho
muitas reminiscências. O tempo é que não comporta
todas..."
Ela sempre adiando os projetos literários. Para não ser
pressionada de todo por mim, fez-se dona de uma livraria. No entanto,
uma biblioteca maior habita em sua memória. "O melhor de todos
os livros, Mica!" - digo-lhe, importunando-a. Mas, para se ler tal
obra, precisamos nos aproximar, fazermo-nos companheiros, ir cavoucando,
de mansinho, numa conversa espichada e lerda, regada a bules de café,
os seus guardados. São gavetas e mais gavetas de lembranças
perfumosas, baús e baús repletos de causos e amores, tipos
e personagens que encantam e fazem-nos melhor. Mica tem cheiro de gente
do bem. "Nunca perco de todo a esperança na humanidade, o
mundo foi capaz de gerar uma mulher como você!" - filosofo
por entre os cacos do meu abandono.
"Tomara que o tenha distraído. As dores da vida são
sem jeito. O antes do fim está difícil.
Meu abraço.
Mica."
E a carta termina. Diacho!, ela devia ter se espichado mais. Deve ser
sua aproximação com o minimalismo, o excesso de cuidado
com as palavras. O receio dos adjetivos, o esmero no enfiar dos advérbios.
Mica deveria voltar a ser caudalosa. "Barroca!"; do jeitinho
como a conheci.
Amanhã eu a responderei. Vou caprichar numa epístola melosa.
Falando de carinho e amizade, me abraçando apaixonadamente com
os adjetivos. Esfalfando-me nas metáforas, num capricho com os
vocábulos abandonados e antigos, há tempo enterrados pela
pá dos modernistas. A perder-me, enfim, pelas praias desoladas
dos advérbios. De modo, tempo e lugar. Todavia bem sei que eu nunca
farei uma página como a dela. Mas, quem sabe, ela não se
dê conta, e, zangada, rebata-me com uma de suas missivas encimadas
com letras góticas. Será um deleite! Eu sei que é
egoísmo meu, e adoro ser egoísta com ouro, incenso e mirra,
querida Mica.

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