
ARTIGOS
EITA
CARTÃOZINHO...!
Raimundo Antônio - professor
Às
vezes, eu fico impressionado como funciona a prestação de
serviços no Brasil, especificamente, na relação direitos
e deveres dos consumidores. Os Procons de todo o país estão
cheios de reclamações contra as empresas, e não se
constituem raridades os descasos, até na mídia televisiva,
de consumidores que se cansaram de tentar um acordo e não conseguem,
de forma alguma, pelo menos, ser atendidos, como foi e está sendo
no meu caso.
Eu tenho um ItauCard - cartão de crédito, com vencimento
todos os dias quinze de cada mês. Agora no mês de abril, ao
receber a fatura, percebi o item anuidade onde lá se encontrava:
seis vezes de vinte reais. Achei exorbitante pagar essa taxa para poder
utilizar o serviço, mesmo porque, no ano passado, eu já
tinha negociado que o cartão seria isento, definitivamente, dessa
cobrança. Munido de uma considerável dose de paciência,
eu disquei para o zero oitocentos deles. Depois do processo necessário
para que uma das atendentes me desse a devida atenção, finalmente
me colocaram à disposição da senhorita Jeanne. Expliquei-lhe
o motivo da minha ligação e pedi-lhe que revisse as quantias
que iriam ser debitadas nas minhas faturas vindouras.
-Senhor, eu estou entendendo a sua explicação, mas o cartão
tem um custo operacional e, por isso, o senhor está sendo debitado
nesses valores.
-Certo, senhorita, porém eu não tenho nada a ver com o custo
operacional do cartão. Sou cliente apenas. Se o cartão não
pode me isentar dessa taxa - para que eu o utilize em minhas compras,
consequentemente, traga dividendos para o mesmo - eu solicito que a senhorita
faça o cancelamento dele, por favor.
- Senhor, o senhor não está entendendo. A anuidade cobrada
é para cobrir despesas com atrasos no pagamento, clonagens de cartões,
compras indevidas, folha de pagamento...
-Senhorita, você me desculpe a pergunta, mas, o que eu tenho a ver
com isso? Eu não atraso o pagamento do meu cartão, nunca
clonei e nem fiz compras indevidas e, se não me engano, a empresa
não honra seus compromissos à custa do suor alheio. Aqui,
no caso, a senhorita está querendo colocar a responsabilidade da
folha de pagamento da prestadora nas minhas costas.
Nessa altura do campeonato, eu já estava quase zerado com relação
ao item calma, mas resolvi ir até o final. E, para não prolongar
mais a conversa, solicitei, então, que ela me desse o valor dos
débitos - compras do mês, anuidade total, lançamentos
futuros, mais um código de barras -, para que eu pudesse efetivar
o pagamento dos meus débitos e, ao mesmo tempo, solicitei que ela
fizesse o desligamento ou cancelamento da minha conta de cartão
junto ao Itaú. Foi aí que começou o maior dos testes:
disponibilidade para esperar que a atendente providenciasse uma solução
para o meu caso.
Primeiramente, ela me orientou para que não cancelasse o cartão.
Em segundo lugar, ela propôs a troca da quantidade de pontos que
eu tinha, pela diminuição do valor mensal da anuidade, ficando,
no caso, seis de quatro reais. Eu concordei e foram, no mesmo instante,
retirados cinco mil pontos dos meus bônus. Como era hora do almoço
e já tinham se passado quarenta e cinco minutos, eu achei que a
demora seria pouca. O meu estômago implorava para pôr para
dentro a comida que estava posta na mesa e que, à medida que o
tempo passava, o cheiro delicioso estava indo embora, junto com a minha
paciência.
- Um momento, por favor. - repetia a atendente Jeanne a todo o instante.
Em seguida, agradecia por eu ter esperado e pedia que eu tivesse mais
um pouco de paciência, pois devido a um problema no "sistema"
(esse tal de sistema é quem leva a culpa sempre) ainda não
tinha conseguido fazer as retificações.
Para encurtar a conversa, depois de vários "aguarde, por favor,"
"obrigado por esperar", "só mais um minutinho, por
favor", "mais um minutinho, por favor", a gentil senhorita,
finalmente, me disse que já estava tudo feito. A partir do mês
seguinte, eu pagaria o valor ali acordado e que seria estornado, na fatura
seguinte, o que estava sendo cobrado na fatura do mês. Assim, depois
de uma hora e quarenta e cinco minutos, eu pude desligar o telefone. O
ouvido doía, a fome tinha passado e os batimentos cardíacos
estavam, com certeza, nos mesmos níveis dos pilotos de fórmula
um.
Dito e feito. No mês seguinte, o estorno, a cobrança da anuidade
concordada, tudo nos conformes. Porém, somente no mês de
maio, infelizmente. Assim, munido, de novo, de uma dose extra de resignação,
de boa fé, que sempre me alimentou, e a certeza de que, desta vez,
eu não ficaria mais de uma hora com o aparelho telefônico
no ouvido, eu liguei para a Operadora (eu acho deliciosamente suave a
voz que recepciona quem disca para o zero oitocentos deles) e depois de
todo o protocolo (que eu acho correto) me atendeu o senhor Leonardo. Coloquei-o,
imediatamente, a par do que tinha conversado com a atendente Jeanne -
de todo o processo e o porquê de estar ligando de novo.
-Aguarde um momento, por favor. - disse o atendente.
-Pois não. - respondi educadamente.
-Obrigado por aguardar "seu" Raimundo. De fato, aqui consta
a sua solicitação, a retificação, tudo está
como o senhor descreveu. Acontece... (Neste momento a ligação
começou a entrar em parafuso. Era um tal de bip tocando, uma interferência
de vozes e barulho de metais batendo um no outro - alternava com o "oi"
de ambos os lados até que, enfim, a ligação caiu).
Imediatamente, voltei a discar, fiz todo o processo para se chegar ao
atendimento com um dos atendentes e, sempre que chegava na opção
disque quatro para saber sobre anuidade do cartão, em seguida,
caía aquela musiqueta infernal que, das vezes que tentei contato,
ela ficou tocando por mais de vinte minutos sem que alguma pessoa me atendesse.
Depois de várias tentativas - todas em vão - desisti.
Agora no mês de junho, a anuidade voltou para vinte reais a parcela
e, pior, de lá para cá eu não consegui mais falar
com um atendente. Mas, eu estou fazendo o seguinte: todos os dias eu ligo
para o atendimento ItauCard. Escuto a voz deliciosa de ouvir, faço
todos os passos, escuto o meu saldo para pagamento (aí eles são
finos em atender!), depois eu espero as opções para o atendimento
personalizado e quando chega a opção "quatro"
de anuidade eu teclo e fico ouvindo a "musiquinha" irritante,
própria para que, quem liga, desligue imediatamente o telefone.
Ah! Tem mais uma coisa: o cartão, apesar de não estar em
débito, está bloqueado. Passei um vexame danado, recentemente.
Estava em viagem, na cidade de Pau dos Ferros/RN. Fui jantar e, quando
veio o valor da conta, claro, dei o meu cartão ItauCard. Para minha
surpresa, o pagamento não foi autorizado. De lá para cá,
tenho tentado, sem sucesso, inclusive em Postos de Gasolina e Supermercados,
utilizá-lo. Porém, em todas as vezes que eu tentei pagar
com ele só dá "desautorizado".
Por sinal, hoje - dia em que estou escrevendo esta crônica, eu cheguei
em casa um pouco apressado, pois vinha meio "desarranjado" do
intestino e aproveitei, na privada, para fazer a ligação
obrigatória de todos os dias - como numa penitência. Como
as dores eram muitas, levei um bom tempo - me espremendo e ouvindo a musiqueta
- numa sinfonia que, se não ficou uma "obra" de arte,
pelo menos fez um duo à altura da consideração que
essa empresa tem para com os seus bons clientes.

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